As big techs aumentaram suas dívidas “ocultas” para um valor estimado de US$ 1,65 trilhão (R$ 8,37 trilhões) somente no último trimestre, ao mesmo tempo em que os investimentos em inteligência artificial (IA) sobem exponencialmente.
Um estudo do Nikkei Asia mostrou que esse montante já é maior do que a dívida registrada nos balanços das companhias de tecnologia dos Estados Unidos, de US$ 1,35 trilhão (R$ 6,85 trilhões). Esse fator preocupa os investidores, visto que não conseguem ter uma avaliação de risco completa. A pesquisa analisou demonstrações financeiras recentes e outros documentos da Alphabet (Google), Microsoft, Amazon, Meta e Oracle.
A Meta, dona do Facebook, Instagram, WhatsApp e Threads, possui quase o triplo da dívida registrada fora do balanço. São cerca de US$ 420 bilhões (R$ 2,13 trilhões) em débitos não informados aos acionistas e ao mercado.
O estudo avalia que boa parte desses valores estão sendo aplicados na expansão dos data centers focados em melhorar o desenvolvimento dos modelos de IA das empresas. As big techs fariam isso firmando contratos de longo prazo para compra de GPUs e servidores.
Shadow borrowing
Como esses investimentos cresceram significativamente além dos valores usuais reportados pelas companhias, uma parcela crescente dos gastos é financiada por meio de empréstimos.
O Banco de Compensações Internacionais (BIS) indicou, em um relatório publicado em março deste ano, que os mercados de títulos corporativos têm sido a principal fonte de financiamento para os “hiperescaladores” — como chamam as big techs que apostam em IA.
As emissões brutas ultrapassaram US$ 100 bilhões em 2025 e a maior parte das emissões foi de longo prazo, com vencimentos superiores a cinco anos, garantindo financiamento para expansões plurianuais. No entanto, os spreads dos Credit Default Swaps (CDS) aumentaram, especialmente para as empresas com classificações de crédito mais baixas, refletindo tanto o volume de oferta quanto as incertezas em torno do retorno dos projetos.
Esses arranjos equivalem ao que os analistas chamam de “shadow borrowing”, ou empréstimos paralelos. Eles seriam obrigações economicamente semelhantes a dívidas, mas que, em grande parte, ficam fora dos balanços corporativos. Ao canalizar um volume considerável de crédito privado para a infraestrutura de IA, essas estruturas fortalecem os laços entre hiperescaladores e investidores não bancários, como veículos de crédito privado e seguradoras.
Os bancos apoiam esses veículos com linhas de financiamento, criando potencialmente novos canais de transmissão de choques.

O custo da IA para as big techs
Construir centros de dados exige investimentos bilionários. Por isso, diversas companhias de tecnologia costumam firmar contratos com operadores desses centros, permitindo utilizar as instalações sem gastar diretamente com o terreno, edifícios e infraestrutura elétrica.
A premissa é que os lucros futuros superarão as dívidas com os contratos de longo prazo com essas operadoras.
A preocupação dos investidores
A maior preocupação do momento está relacionada com o risco de projetos de data centers perderem fôlego e de uma eventual frustração com a IA se espalhar pelo mercado.
O investimento em IA está baseado no retorno sobre compras de GPUs e pagamentos por serviços de nuvem, mas a demanda ainda não pode ser completamente medida. Esse ciclo aumenta o risco de superinvestimento em data centers.
Caso haja mudança no mercado e a tecnologia de IA não seja mais útil, as big techs podem acumular uma série de dívidas.

