Itaú, Rabobank, BTG e HSBC possuem cerca de 54% dos créditos sujeitos à recuperação extrajudicial do Grupo Pão de Açúcar (GPA), que tem mais de R$ 4,5 bilhões em dívidas. Com o plano proposto pelo grupo, o peso dos bancos na decisão de aprovar ou não as estratégias para a recuperação está incomodando os demais credores.
O Pão de Açúcar precisa de 57% de adesão dos credores para rodar seu plano, mas as instituições financeiras ocupam boa parte dessa porcentagem. Para Casas Bahia, Logged, Cone, transportadoras e investidores de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), o GPA não poderia colocar esses credores no mesmo grupo dívidas bancárias e créditos originados de contratos, arbitragens e processos judiciais.
Somente o Itaú, por exemplo, representa cerca de 24,54% dos créditos sujeitos. Investidores de CRIs acusam a empresa de conflito de interesses.
O plano ainda não foi homologado, mas o juiz Henrique Inoue, da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, determinará o peso dos bancos pode impor a reestruturação aos demais credores e se o Pão de Açúcar selecionou corretamente as dívidas incluídas.
Essa não é a primeira crise do Pão de Açúcar. Desde a década de 1980 o grupo varejista passou por dificuldades na gestão, sucessão, reestruturação e até mesmo entrada na Casino.
Início das crises
O Grupo Pão de Açúcar surgiu em 1948 e se tornou um dos maiores players do setor varejista. Entre os anos iniciais da companhia, o modelo de negócios virou um verdadeiro sucesso, mas começou a lidar com diversos problemas a partir da década de 1980.
O grupo focou em se diversificar excessivamente em formatos como Sandiz, Peg & Pag e Minibox, o que gerou dificuldades de gestão. Em 1981, consolidou tudo sob a Companhia Brasileira de Distribuição (CBD) para tentar reorganizar as operações.
Já em 1988, o Pão de Açúcar ainda lidou com uma crise sucessória. A disputa entre os três filhos de Valentim Diniz em cargos executivos acabou com a saída de Alcides Diniz. Isso geraria uma mudança nos rumos da gestão do negócio.
Um dos principais marcos da época foi o sequestro de Abílio Diniz em dezembro de 1989, em que ficou 153 horas em cativeiro. O episódio abalou profundamente a empresa e seu líder.
Reestruturação econômica
Além do sequestro na virada para a década de 1990, a crise econômica do governo Collor e também impactou fortemente o grupo, que precisou se reestruturar para sobreviver. Foi nessa época que várias varejistas, incluindo o PDA, quase entraram em falência.
Abílio Diniz liderou uma reformulação radical ao assumir a presidência do grupo em 1991, fechando 400 lojas e demitindo mais de 30.000 funcionários. Sua estratégia, no entanto, funcionou e a empresa retomou seu crescimento, que rendeu abertura de capital na Bolsa de Nova York.
Concorrência crescente
O avanço do Carrefour, a intensificação da disputa no varejo alimentar e também a entrada do Casino em 1999 pressionavam o GPA no início dos anos 2000.
Em 2005, o grupo francês pagou US$ 900 milhões para dividir o controle da companhia, com previsão de assumir o controle total em 2012 — decisão que plantou a semente do grande conflito societário da década seguinte.
Entre 2011 e 2013, Abílio tentou reverter o acordo de 2005 e articulou uma fusão com o Carrefour para não perder o controle e o Casino entrou com arbitragem internacional em Paris. O conflito durou cerca de dois anos e meio e custou por volta de R$ 500 milhões aos sócios, além de resultar na saída de Abílio Diniz da presidência do conselho, pondo fim à era da família Diniz à frente do grupo.
A partir de 2014, um período de recessão econômica e reorganização foi marcada por prejuízos recorrentes, queda no consumo e inflação de alimentos. Nesse período, o Assaí foi separado da estrutura do GPA e a empresa vendeu sua participação na Via Varejo, concentrando-se no varejo alimentar tradicional. Cerca de uma década depois, decretou recuperação extrajudicial.
Plano de recuperação extrajudicial
O plano estruturado pelo GPA para a recuperação judicial permite uma solução estruturada para os desafios encarados pela companhia, voltados de forma simultânea para a sustentabilidade financeira a longo prazo e a liquidez a um curto prazo. Através da homologação judicial, é esperado que as obrigações de pagamento presentes no plano de recuperação tenham os seguintes pontos:
- Redução de mais de 50% do valor total ao longo do tempo;
- Redução do custo médio para CDI + 0,5% ao ano;
- Prazo médio estendido para 6,4 anos.
O plano teve uma aprovação unânime do Conselho de Administração e, além desses pontos, ele ainda prevê um novo financiamento destinado a companhia no valor de até R$ 200 milhões, sendo realizado de forma integral pelos credores do plano de recuperação extrajudicial que possuem o desejo de permitir novos recursos para o GPA.
Ainda há a contemplação da reestruturação dos créditos sujeitos em debêntures conversíveis de até R$ 1 bilhão. Elas terão, ao todo, quatro janelas de conversão, durante o primeiro semestre de 2027, 2029, 2030 e 2031, respectivos ao critérios dos seus titulares.

